Abarth 595C esseesse – Pica e não é pouco

Segundo informação que apurei junto do maravilhoso e duvidoso mundo da Wikipedia, a escala de Scoville, desenvolvida no início do século XX pelo farmacêutico Wilbur Scoville, mede o grau de ardência das pimentas. Mas o que a Wikipedia não diz é que este americano falecido em 1942 só pode ter sido uma das maiores inspirações para o trabalho de Carlo Abarth e para a forma como a agora marca do grupo FCA nos seduz com as suas maravilhosas criações. O próprio site da Abarth deixa isso bem claro. O picante aqui não vem da pimenta, mas sim do escorpião. Este está lá, sempre, para o picar, independentemente do quão modificada está a versão em questão do pequeno e icónico 500.

O veneno das versões do 595 varia entre os 145 cavalos da versão base e os 180 cavalos deste 595C esseesse que tão bem ficava na Garagem mais algum tempo. Assim sendo, e tal como a escala de Scoville, também a gama da Abarth está dividida em vários graus de ardência. E se o 595 é o equivalente ao picante que manda colocar no frango assado que compra quando não lhe apetece cozinhar, este esseesse com 180 cavalos está bem mais lá para cima na escala. Diria que, considerando a minha curta experiência no mundo dos picantes e da culinária, este é daqueles que já nos traz as lágrimas aos olhos e que parece capaz de nos derreter o esófago. Sendo essencialmente um FIAT 500, este é um carro muito fácil de conduzir (devagar…) e que finta os obstáculos da cidade como poucos outros conseguem. Com excepção das lombas, claro, já que este rasteirinho obriga a cuidados redobrados quando o piso fica menos simpático. Mas vá, passemos ao que realmente importa. Àquilo que levou Carlo Abarth a meter mãos à obra: a performance.

O 1.4 Turbo enche o pequeno cofre do motor e enche, também, de uma forma muito singular. É um motor que mistura a mais imediata disponibilidade dos motores atuais, com uma explosão de potência mais caraterística de outras épocas. Isto agrada-me. Este é um carro moderno em muitos aspectos, mas que, inevitavelmente, nos remete para um passado rico, quer a nível da emoção da competição, quer a nível de estilo, com as suas linhas retro muito bem recriadas para o novo milénio. Pisar a fundo no acelerador no modo mais espevitado do esseesse é uma experiência impressionante. Não nos transforma num Markku Alen temporário, esse finlandês que fazia (e faz…) magia de cada vez que pegava num FIAT, Lancia, Abarth ou qualquer outra coisa rápida com rodas de que lhe dessem a chave, mas coloca os 180 cavalos no modo maximum attack, tal como a condução do fantástico flying finn.

Os Pirelli lutam por tração, ajudados pelo autoblocante mecânico que rapidamente coloca o eixo dianteiro no caminho certo quando em curva, e o escape Akrapovic providencia a banda sonora adequada ao momento. Este simpático carrinho não só é o terror dos peões mais distraídos nos parques subterrâneos, como foi, durante este ensaio, motivo de uma breve discussão de trânsito. Não, caro senhor. Eu não ia depressa. Você é que se distraiu e assustou-se com o tiroteio quando meti a segunda.

A direção rápida aliada ao baixo peso do 595 fazem maravilhas nas mudanças de direção mais repentinas. Isto ficou bem claro quando o fomos espremer ao circuito Lisboa Kart, na zona de Odivelas. O eixo dianteiro é muito fácil de apontar ao apex da curva mas nas travagens mais exigentes, ou em situações de maior apoio, a traseira mostra-se e relembra-nos de que está logo ali, praticamente atrás das baquets Sabelt. Assim, com uma distância entre eixos tão reduzida, o 595 tem na sua agilidade de mosquito um grande argumento, mas igualmente um aviso de que a estabilidade a maiores velocidades requer atenção.

A verdade é que me iniciei nesta vida dos picantes da Abarth logo pelo mais forte. Como o 595C, não tenho um botão que me transforme num condutor como Alén. Assim, não estive nem perto de usufruir de todas as qualidades dinâmicas do chassis do esseesse nem da rapidez dos 180 cavalos do motor. Se gosta de muito e bom picante na sua comida, avance, não se vai arrepender. É um estrondo de automóvel, em todos os sentidos. Se, como eu, começa a suar cedo, tenho a certeza de que a experiência ao volante de um 595 com 145 cavalos tem picante mais do que suficiente para desfrutar da experiência Abarth.

Fotos: Pedro Francisco

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